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Brasil

Religiosos e pesquisadores defendem fé que acolha população LGBTQIA+

adminBy adminFevereiro 4, 2025Sem comentários5 Mins Read
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As religiões podem se tornar espaços de acolhimento e de inclusão das diferentes orientações sexuais e identidades de gênero. É com essa visão que pesquisadores, ativistas e religiosos se reúnem a partir de hoje (4) no 1º Seminário Nacional LGBTQIA+ de Fé: diálogo inter-religioso e luta contra fundamentalismos. O evento vai até o dia 6 de fevereiro na Biblioteca Parque Estadual, na região central do Rio de Janeiro.

A cientista da religião Giovanna Sarto é uma das curadoras do encontro, que vai reunir representantes de tradições religiosas diferentes: Budismo, Santo Daime, Islamismo, Candomblé, Umbanda, Hinduísmo, Catolicismo, religião pagã, além de instituições evangélicas tradicionais, pentecostais e neopentecostais.

Ela diz ter esperança de que, por meio do diálogo e da mobilização coletiva, fé e pluralidade sexual sejam elementos cada vez mais compatíveis.

“No Brasil hoje, a gente vê que há maior abertura para a diversidade sexual e de gênero, por exemplo, entre as religiões de terreiro, como umbanda e candomblé. Mas em todas as religiões há nuances de conservadorismos e de fundamentalismos que impedem o diálogo. Por outro lado, há grupos da Igreja Católica e de igrejas pentecostais que são bem abertos ao diálogo”, diz a pesquisadora.

Um dos principais obstáculos nesse sentido é o do fortalecimento mais recente dos fundamentalismos religiosos, impulsionados em parte por políticos reacionários.

 “Fundamentalismos são diferentes tendências entre grupos e instituições de promover interpretações literais ou fundamentais de textos religiosos. Muitas vezes, sem levar em conta o contexto do que foi escrito, qual é a base histórica e política dele. E isso para justificar violência, exclusão e segregação”, explica Giovanna.


Brasília (DF) 04/02/2025 -Religiosos e pesquisadores defendem fé que acolha população LGBTQIA+.
Foto: Giovanna Sarto/Arquivo Pessoal

Brasília – Religiosos e pesquisadores defendem fé que acolha população LGBTQIA+ – Foto Giovanna Sarto/Arquivo Pessoal

Para a pesquisadora, é uma contradição que religiões originalmente plurais e acolhedoras hoje se apresentem de forma excludente e violenta contra a população LGBTQIA+.

“Se a gente olhar nos textos do Cristianismo, que representa o caldo mais grosso da religiosidade brasileira hoje, é uma religião extremamente plural. Quando a gente abre a bíblia judaico-cristã, vê inúmeras histórias de vivências sexuais, diferentes identidades e formas de relação. Que na época, inclusive, afrontaram o sistema e perturbaram a ordem”, diz Giovanna.

“Muito paradoxal ver hoje o Cristianismo como esse grande formulador do que é a verdade, do que deve ser a sexualidade, do que não se deve aceitar em termos morais. Quando, na verdade, ele nasce desse lugar de pluralidade, de vivência mais livre, respeito e de uma coletividade dialogal”, complementa.

Seminário

O 1º Seminário Nacional LGBTQIA+ de Fé também vai reunir ativistas, artistas e políticos. O evento é organizado pelo Fundo Positivo, uma organização sem fins lucrativos, voltada principalmente para ações nas áreas de saúde preventiva, HIV/AIDS e diversidade. Além de Giovanna Sarto, a teóloga queer Ana Ester também responde pela curadoria do seminário.

Entre os participantes confirmados estão a vereadora Monica Benício (PSOL/RJ), a deputada estadual Dani Balbi (PcdoB/RJ), Pai Rodney de Oxóssi, os ativistas Fred Nicácio e Valéria Barcellos.

Os principais temas trabalhados no encontro são Terapia de Reversão, O enfrentamento aos fundamentalismos a partir da ética da diversidade, Bíblia e diversidade sexual e de gênero e Intolerância religiosa no Brasil”. No fim do encontro, será publicada a Carta do Rio de Janeiro contra a LGBTfobia, destinada a políticos e autoridades, com o objetivo de incentivar políticas públicas de defesa à vida.

Traumas religiosos

Héder Bello vai participar do seminário como coordenador do grupo de trabalho que pede a criminalização da chamada “cura gay”. Ele se apresenta como um sobrevivente desse processo, que aconteceu quando tinha entre 14 e 27 anos de idade. Natural de Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio, cresceu em uma família evangélica fundamentalista que entendia a homossexualidade como um desvio moral.


Brasília (DF) 04/02/2025 -Religiosos e pesquisadores defendem fé que acolha população LGBTQIA+.
Foto: Hélder Bello/Arquivo Pessoal

Brasília – Religiosos e pesquisadores defendem fé que acolha população LGBTQIA+ – Foto Héder Bello/Arquivo Pessoal

“Passei por psicólogos cristãos que tentavam me reorientar, por exorcismos, jejuns de três dias (um dos quais me levou ao desmaio, interpretado como possessão demoníaca), autoflagelação, orações incessantes e confissões públicas sobre meus desejos, tudo em busca de uma ‘cura’ que nunca viria”, diz Héder.

“Eu estava preso em um regime de constante controle e repressão emocional, o que afetou minha autoestima, meu amor próprio e fez com que eu literalmente me odiasse, fazendo com que pensamentos suicidas fossem muito frequentes”, complementa.

Héder cursou psicologia na universidade e, ao ter acesso a novas perspectivas, começou a questionar as visões negativas da religião sobre a diversidade sexual. Atualmente, está concluindo um doutorado na área, em que pesquisa os efeitos negativos das terapias de conversão sexual.

“Hoje, minha luta é para que o Brasil avance no combate à cura gay, não apenas com a proibição ética pelo Conselho de Psicologia, mas com uma criminalização efetiva dessas práticas, garantindo que nenhum jovem LGBTQIA+ precise passar pelo que eu passei. Além disso, defendo que o poder público implemente políticas de reparação para as vítimas dessas práticas, reconhecendo os danos irreversíveis que elas causam”, diz Héder. “A cura gay não é uma terapia. É um mecanismo de tortura psicológica e emocional que destrói vidas”.


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Com informações da Agência Brasil

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