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Home»Brasil»Ativista que quer “calçar o mundo” já distribuiu 60 mil chinelos
Brasil

Ativista que quer “calçar o mundo” já distribuiu 60 mil chinelos

adminBy adminDezembro 7, 2025Sem comentários4 Mins Read
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Crianças descalças chamaram a atenção de Betty Mae Agi e de sua irmã, Brenda, quando elas estavam fazendo trabalho voluntário em Angola. A viagem para o país do continente africano foi uma troca: abriram mão da festa de formatura do curso de Biomedicina e foram trabalhar como biomédicas.

Betty nasceu em Brasília e mora em Anápolis (GO), filha de pai moçambicano e mãe brasileira. Trabalhando na área de parasitoses e verminoses, as irmãs perceberam que as crianças morriam, entre outras coisas, pelo contato com o esgoto a céu aberto em situações de muita precariedade. O ano era 2010 e, segundo Betty, ninguém estava olhando para essa questão. 

Ao voltar para o Brasil, usaram a antiga rede social Orkut para divulgar um álbum de fotos unindo o ballet e os chinelos. O objetivo era arrecadar 250 pares de chinelos para enviar às crianças angolanas. A campanha alcançou 17 estados e, no segundo dia, a meta foi alcançada. Ao mesmo tempo, chegaram pedidos do Brasil, da Índia e do Haiti, o que deu a elas a dimensão do problema.

“Na época, segundo dados da ONU, 300 milhões de crianças viviam descalças por falta de opção. E isso é um problema de saúde, um problema de dignidade, de mobilidade, de segurança. Imagina no meio da guerra civil e você descalço. Você corre quanto? Você pode ir para onde”, pergunta Betty Mae Agi.

Da distribuição da chinelos nasceu a ONG Compaixão Internacional, que já calçou 60 mil crianças em 23 países.

“O par de chinelos hoje, para o público que a gente atende, não é só aquele pedaço de borracha que a gente tem vergonha de usar no Brasil, de repente. Ele é um meio de transporte. É o que vai delimitar se uma criança vai entrar na escola ou não”.  

Betty aponta ainda que as pessoas descalças sofrem do estigma da falta de higiene e chama atenção para o recorte racial da questão: segundo ela, 80% das pessoas que não têm sapatos são pessoas não-brancas.

“É urgente a gente resolver isso. Porque a gente fala que a humanidade está caminhando para o futuro, mas está caminhando como? Alguns estão com carro elétrico, outros, estão descalços”, reflete a ativista.

Palestrante e autista


Brasília (DF), 05/12/2025 - Ativista que quer “calçar o mundo” já distribuiu mais de 60 mil chinelos
Betty Mae Agi começou o trabalho em Angola e hoje está em 24 países.
Foto: Betty Mae Agi/Arquivo pessoal

Betty Mae Agi começou o trabalho em Angola – Betty Mae Agi/Arquivo pessoal

Além de biomédica, Betty é gestora de projetos, palestrante e autista.

O diagnóstico de autismo veio quando ainda era criança. Em casa, sempre teve o incentivo dos pais, que falavam de missão, de propósito e da importância de ter uma carreira que fosse relevante.

Os pais também sempre acompanharam a vida escolar das filhas de perto. E Betty conta que foi um choque chegar na faculdade, aos 15 anos e em outra cidade, quando mudou-se de Brasília para Anápolis. Ao lado dela, somente a irmã, também autista.

Lidando com a neurodivergência, ela conta que passou por muitas dificuldades, como as crises sensoriais e toda ansiedade social próprias da condição. E o que a segurou na faculdade era saber que havia um propósito ali.     

“Sempre fomos intencionais no que estávamos fazendo, porque tem um custo muito alto”, afirma.

Ela conta ainda que cresceu ouvindo que o problema dela era não olhar nos olhos dos outros. E foram anos de terapia para conseguir olhar nos olhos das pessoas sem se sentir muito invadida.  

“Mas, o nosso maior ganho foi olhar para os pés das pessoas. Hoje eu continuo não olhando propriamente a cara das pessoas, mas eu olho para os pés e é isso que está me fazendo caminhar”, se orgulha.

Caminhando, ela chegou à vencedora do reality shows de palestras “The Best Speaker Brasil”, no último dia 29. Enfrentando a ansiedade, luzes, barulho, cores e desregulação sensorial, conseguiu superar quase 36 mil inscritos. No palco, pode ser ela mesma, falou abertamente do seu diagnóstico e foi acolhida.  

“O que me aterra nessa terra é um propósito. Talvez se fosse outra coisa, sem propósito, eu não conseguiria”, finaliza Betty.

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Com informações da Agência Brasil

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