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Home»Brasil»Legado de Lélia Gonzalez é tema de debates e mostra no CCBB-RJ
Brasil

Legado de Lélia Gonzalez é tema de debates e mostra no CCBB-RJ

adminBy adminFevereiro 3, 2025Sem comentários4 Mins Read
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A atriz Zezé Motta nunca mais se esqueceu da primeira frase da filósofa e antropóloga Lélia Gonzalez, na aula inaugural de um curso sobre cultura negra, no Rio de Janeiro. O ano era 1976 e a atriz buscava articular um discurso antirracista. Saiu de lá com a autoestima renovada e juntou-se àqueles que combatiam a discriminação racial no Brasil.

“Eu sei porque vocês estão aqui, mas gostaria de lembrá-los que não temos tempo para lamúrias, temos de arregaçar as mangas e virar o jogo”, foi a frase que marcou Zezé, como ela conta em várias entrevistas, sobre o curso que mudou sua trajetória, na Escola de Artes Visuais (EAV), do Parque Lage. A formação abordou várias questões, como identidade e a própria contribuição da população negra para a cultura brasileira.

Lélia e Zezé tornaram-se grandes amigas, demonstrado pelo o vídeo do programa Os Astros, sem data, recuperado do acervo da antiga TVE, atual TV Brasil, gravado na casa da atriz. Zezé teve a vida transformada por Lélia, mas ela não foi a única.

Em homenagem aos 90 anos de nascimento da filósofa e antropóloga referência para o movimento de mulheres negras, em 1º de fevereiro, o Centro Cultural Banco do Brasil recebe o Projeto Memória, que discute a vida e obra de Lélia, a partir de segunda-feira (3), no centro do Rio de Janeiro. O evento receberá intelectuais como Sueli Carneiro e Conceição Evaristo e a exposição Caminhos e Reflexões Antirracistas e Antissexistas.

Lélia é uma das maiores pensadoras brasileiras e foi pioneira ao incluir o gênero no debate sobre racismo, mostrando como as mulheres negras são mais afetadas. Ela também propunha um feminismo afrolatinoamericano, protagonizado por mulheres indígenas e negras, que eram negligenciadas na agenda das feministas brancas. 

“Nós sempre participamos do movimento feminista, somos a favor do movimento feminista, só que a gente tinha pautas diferentes”, explicou a professora e ex-parlamentar Jurema Batista, no vídeo da exposição. 

“As mulheres brancas estavam brigando [por direitos], mas elas tinham a babá para os filhos delas. As mulheres negras não. Cuidavam dos filhos das brancas e voltavam para cuidar dos seus, em casa”, explicou, sobre as condições de vida e o trabalho invisibilizado e com menos direitos das domésticas.

Lélia também refletiu sobre a situação do negro na América Latina e colaborou na fundação do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN) e do Movimento Negro Unificado, que denunciavam o mito da democracia racial, pensamento comum entre intelectuais brasileiros da época, e cobravam políticas públicas para população negra.

Como uma grande pensadora da contemporaneidade, ela desenvolveu conceitos como “Améfrica” e “pretoguês”, mostrando como a língua portuguesa, no Brasil, recebeu influências africanas evidentes na ausência de consoantes como L ou R. 

Já no conceito de “amefricanidade”, ela defendeu as contribuições dos povos originários e da diáspora africana para as Américas, além de destacar as estratégias de resistência.

Para Sueli Carneiro, filósofa e e ativista antirracista de destaque na atualidade, o legado mais precioso de Lélia foi a coragem. “Ela combateu o racismo e sexismo, naquela época, de ditadura militar, e tinha clareza de que somente a luta política erradicaria o racismo e as mazelas que ele produz”, refletiu, no curta exibido no CCBB. 

No primeiro e segundo dias do Projeto Memória, no CCBB, haverá debates com as intelectuais, sempre de 18h às 22h, sobre o legado de Lélia e suas ideias. Para participar dos eventos, é preciso retirar o ingresso gratuito na bilheteria virtual do CCBB, com antecedência, no site bb.com.br/cultura, a partir das 9h de cada dia.

A mostra educativa, com a exibição do painel sobre a trajetória da ativista e do documentário com depoimentos de intelectuais e descendentes sobre sua importância, permanece em cartaz até 7 de abril, de 9h às 20h, com entrada franca.

O CCBB fica na Rua Primeiro de Março, nº 66, no centro do Rio.

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Com informações da Agência Brasil

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