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São Paulo

Cientistas propõem medidas para conter avanço de fungos resistentes a medicamentos

adminBy adminJunho 27, 2026Sem comentários5 Mins Read
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A propagação de fungos patogênicos resistentes a medicamentos precisa ser um dos focos de atenção do próximo Plano de Ação Global sobre Resistência Antimicrobiana da Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo um grupo internacional de pesquisadores. O documento, previsto para ser divulgado ainda neste ano, vai atualizar as diretrizes lançadas em 2015.

O alerta foi dado em um artigo publicado em abril na revista Nature Medicine. Segundo os autores, entre eles três brasileiros, “a resistência antifúngica está se expandindo entre patógenos humanos, comprometendo a eficácia de terapias de primeira linha e aumentando as mortes” por infecções fúngicas graves.

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“Por isso, nós propomos ação imediata e o estabelecimento de uma força-tarefa com especialistas em micologia [ramo da biologia que estuda fungos], líderes de saúde pública, saúde animal, ciências ambientais e formuladores de políticas públicas, a fim de apoiar ações colaborativas que mitiguem a emergência e disseminação de patógenos resistentes a antifúngicos”, diz à Agência Fapesp Arnaldo Lopes Colombo, médico infectologista, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e coordenador do Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos (ARIES), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela Fapesp.

Um dos autores do artigo, Colombo é presidente da Sociedade Internacional para Micologia Humana e Animal (ISHAM, na sigla em inglês) e coordena o Centro de Micologia Médica da América Latina (CMM Latam), também apoiado pela Fapesp.

Os outros coautores brasileiros do artigo são Amanda Ribeiro dos Santos, pós-doutoranda na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP) e bolsista da FAPESP, e Flavio Queiroz-Telles, pesquisador da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Perigo negligenciado

A resistência antimicrobiana ocorre quando surgem linhagens de patógenos que não respondem aos medicamentos disponíveis. Bactérias e fungos multirresistentes, como também são chamados, afetam sobretudo crianças, idosos e pacientes expostos a ambientes de terapia intensiva, bem como aqueles com sistema imune comprometido. Eventualmente, podem acometer jovens saudáveis expostos a fungos presentes na comunidade.

Normalmente, microrganismos multirresistentes são transmitidos em ambiente hospitalar, mas já foram encontrados mesmo em sistemas aquáticos, animais domésticos e selvagens.

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Historicamente, a maior parte das atenções da indústria farmacêutica e da pesquisa científica tem se voltado para as bactérias multirresistentes, mas os autores chamam a atenção para o perigo das infecções fúngicas resistentes a antimicrobianos e a atual falta de opções terapêuticas para tratá-las.

Em episódios como a pandemia de COVID-19, por exemplo, as infecções fúngicas chegaram a aumentar as mortes de pacientes em estado grave internados em terapia intensiva.

Inovação

Uma das dificuldades para o desenvolvimento de novos antifúngicos é que, diferentemente das bactérias, os fungos são eucariontes (suas células, como as humanas, possuem um núcleo definido e organelas envoltas por membranas) e compartilham vias essenciais de sinalização celular com células humanas. Isso restringe o desenvolvimento de drogas seletivas para os fungos, aumenta a toxicidade dos medicamentos e as possíveis interações com outras drogas.

“A resistência antifúngica se mantém negligenciada em estratégias globais e nacionais. Como o Plano de Ação Global em Resistência Antimicrobiana passa por revisão em 2026, é necessária a urgente inclusão de ações visando mitigar a resistência a antifúngicos, com a incorporação de uma abordagem holística de Saúde Única [One Health] envolvendo atores da saúde humana, animal e ambiental”, escrevem os pesquisadores.

Os cientistas reforçam que a abordagem de Saúde Única é crucial, uma vez que fungos patogênicos encontram seu hábitat natural no ambiente em que a resistência a antifúngicos de uso clínico é induzida pela exposição a fungicidas com estrutura molecular semelhante e mesmo modo de ação.

“Além dos medicamentos para consumo humano, o uso indiscriminado de fungicidas na agricultura, indústria e na medicina veterinária também contribui para a resistência a antifúngicos, o que pode acarretar incremento de mortes por infecções fúngicas não tratáveis e comprometimento da segurança alimentar”, diz Colombo.

Divididas em cinco pilares, as propostas do grupo para integrar a resistência antifúngica ao plano da OMS incluem financiamento para estudos de vigilância, a fim de caracterizar a carga de resistência a antifúngicos; desenvolvimento de métodos de diagnóstico rápido e de menor custo para detectar cepas multirresistentes; e acesso equitativo tanto aos antifúngicos existentes quanto aos novos. O tópico inclui ainda apoio para estudos clínicos, transferência de tecnologia e fabricação local, com mecanismos próprios para países de renda baixa e média.

Outras medidas sugeridas pelo grupo incluem ações para garantir que 50% ou mais dos laboratórios de hospitais terciários se capacitem para realizar testes de sensibilidade a antifúngicos e relatem esses resultados anualmente; estabelecer medidas de prevenção e controle da transmissão de fungos resistentes em ambientes hospitalares; e, finalmente, criar programas nacionais de uso racional de antifúngicos no cenário clínico, na medicina veterinária e na agropecuária.

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Com informações do Governo de São Paulo

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