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Home»Brasil»Eventos em Porto Alegre se manifestam contra a intolerância religiosa
Brasil

Eventos em Porto Alegre se manifestam contra a intolerância religiosa

adminBy adminAgosto 15, 2026Sem comentários6 Mins Read
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A luta contra a intolerância religiosa volta às ruas de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, neste sábado (15), com a Marcha dos Quimbandeiros e o Encontro Internacional de Quimbandeiros.

Os dois eventos terão à frente o presidente da Sociedade Beneficente Cultural Oxum e Oxalá, Pai Ricardo de Oxum, babalorixá de destaque nas religiões de matriz africana, que ao lado da Família Yecari do terreiro de batuque da instituição, idealizador da marcha. 

A marcha, em sua 3ª edição, marcada para as 14h, e o Encontro, na 19ª edição, a partir das 20h, pretendem transformar a cidade em referência nacional e internacional para sacerdotes e praticantes da Quimbanda no Brasil, no Uruguai e na Argentina.

Pai Ricardo de Oxum lembra que o encontro surgiu justamente por causa do preconceito no Rio Grande do Sul, que é o estado com maior número de adeptos das religiões de matriz africana, mas também um dos estados com mais casos de intolerância religiosa.

“Há 19 anos surgiu o Encontro de Quimbandeiros por causa do preconceito de não se poder andar caracterizado na rua, nem manifestar sua fé nas encruzilhadas. Se acendessem uma vela na esquina, já vinham e te tratavam com racismo e preconceito”, disse à Agência Brasil.

Dados do Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que o Rio Grande do Sul tem o maior percentual de seguidores da umbanda e do candomblé em relação ao total da sua população (3,19%), seguido do Rio de Janeiro (2,58%), São Paulo (1,47%), Bahia (1%) e Distrito Federal (0,85%).

O sacerdote disse que o encontro evoluiu ao longo dos anos a ponto de ser descoberto internacionalmente pela Argentina, pelo Uruguai e pelo Chile, onde já foi realizado.

De acordo com Pai Ricardo de Oxum, a resistência é bem forte na Argentina. “Lá, o preconceito é descarado. Nos dias de hoje os terreiros quando estão manifestando o seu tambor e um vizinho denuncia que está alto, a polícia chega e tira o tambor e acaba. Não tem discussão”, relatou.

“No Uruguai também há intolerância e no Chile a religião é mais fraca. Ela não predomina com tanta força, justamente porque não consegue evoluir por causa dos preconceitos”, avalia.

No Rio Grande do Sul, além da umbanda, do candomblé e do batuque, a Quimbanda é uma das mais importantes expressões da espiritualidade afro e tem lugar especial entre as correntes religiosas de matriz africana com fundamentos ancestrais ligados à história da população negra no estado.

“Existe o batuqueiro de batuque que veste branco e o quimbandeiro que veste preto com vermelho, que se chamam os Exu e Pomba-Gira. Essas entidades predominam muito em homossexuais e na comunidade LGBTQIA+ e aí surgiu um preconceito decorrente disso”, revelou.

“Há um preconceito com os Exus e Pomba-Giras nas manifestações dos terreiros, onde os homens, que eram maioria, recebiam Pomba-Giras e se vestiam de saia e as mulheres calças quando eram incorporadas por Exu”, explicou.

A intenção de realizar a marcha é para demonstrar que são entidades que fazem o bem e não escolhem o sexo porque podem se manifestar em qualquer pessoa, explica Pai Ricardo. 

No ano passado a marcha reuniu cerca de 2 mil pessoas.

“É um manifesto na rua com trio elétrico e cantos de pontos de Exu e Pomba-Gira. O pessoal acompanha, muitos com cartazes refutando a intolerância religiosa. Vem gente de vários municípios relatando preconceitos das suas cidades e nos seus terreiros. É um momento de explanar. É para isso que existe”, explicou Pai Ricardo.

Pai Ricardo de Oxum acrescentou que as entidades nada mais são do que mensageiros que passaram pela Terra, cada um dentro da sua origem. O malandro da Lapa, as Marias, as prostitutas, os trabalhadores, os médicos, hoje se manifestam com os nomes de Exu e Pomba-Gira que trabalham em um campo astral. Tem Exu que trabalha para o amor, outros para a família. Não tem quem trabalhe para o mal. O mal está na cabeça do ser humano”, esclarece.

Espaço exclusivo

O Encontro em Porto Alegre será em um espaço doado pela prefeitura da cidade. 

“Isso é um marco histórico nacional que se chama Rótulo da Quimbanda. É um espaço que a prefeitura doou para colocar o monumento de Exu, que é o primeiro em céu aberto no Brasil. Isso ocorreu há cinco anos”, disse.

Entre as principais lideranças do batuque gaúcho, uma das vertentes religiosas de matriz africana e bem representativo no Rio Grande do Sul, Pai Ricardo de Oxum se dedica há mais de três décadas à preservação das tradições afro-brasileiras.

Na visão do sacerdote do Terreiro de Batuque, a luta contra a intolerância se torna ainda mais urgente ao se analisar os números do Disque 100, que recebe e encaminha denúncias de desrespeito aos direitos humanos.

Conforme a instituição, um levantamento do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania mostrou que entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, o canal registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa. Quando se trata dos casos com religião da vítima identificada, as de matriz africana estão em maiores números. Na Umbanda são 228 e no Candomblé, 161, o que demonstra racismo religioso estrutural.

Pai Ricardo de Oxum apontou a necessidade de desmistificar as figuras de Exu e Pomba-Gira, o que foi feito, por exemplo, no desfile de 2022 da escola de samba Grande Rio, na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. 

“Esse é o trabalho, botando o povo nas ruas mostrando as coisas que deram certo, relatando os seus milagres e as suas famílias unidas e mostrando que Exu não é diabo. Dentro do nosso panteão africano não existe a palavra diabo”, ressaltou.

Representação de Exu

Nesse desfile da Grande Rio, com o enredo Fala, Majeté! Sete Chaves de Exu, desenvolvido pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, a figura de Exu foi interpretada pelo ator Demerson D’Alvaro e a vermelho, verde e branco de Duque de Caxias conquistou o primeiro título de sua história no Grupo Especial do Rio de Janeiro.

Para ele, o desfile e a dança ajudaram a desmistificar a figura de Exu, ainda visto por muitas pessoas contrárias às religiões de matriz africana, como um ser do mal.

“Muitas pessoas conheceram Exu em um desfile de escola de samba, quando se fez uma narrativa que Exu é o orixá mais próximo de nós humanos, por sua singularidade. Não é que só faz o mal ou só faz o bem, ele erra e também acerta. Isso elucida muito para o público quem é Exu”, disse à Agência Brasil.

A 3ª Marcha e o 19º Encontro ocorrem quatro meses depois que Pai Ricardo liderou um ato inter-religioso em homenagem a São Jorge, em parceria com a Igreja São Jorge de Porto Alegre.


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Com informações da Agência Brasil

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